Djero encontra Iketut em Bali – Carmen Rial e Miriam Grossi

Djero encontra Iketut em Bali (2011)

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Direção: Carmen Rial e Miriam Grossi

Categoria: Documentário Etnográfico

Duração: 11 min e 44 seg

Nas palavras de Carmen Rial (2014*):

“O filme resultou de um feliz acidente: fomos até o vilarejo onde Margareth Mead e George Bateson pesquisaram e que resultou no livro Balinese Character (1985), e, por um feliz acaso, encontramos um dos balineses que tinham sido ‘pesquisados’.

– Você conheceu a estrangeira? Perguntou em balinês Djero, nosso motorista, a um senhor que lhe pareceu ser o mais velho numa concentração de pessoas na rua.
– Sim, Margareth. – respondeu Iketut, sem hesitar.

E nos levou à sua casa, para ver o livro que Mead tinha lhe presenteado em sua última visita à Desa Bayung Guede, nos início dos anos 1960, e que ele guardava, com todo o cuidado, enrolado em um saco plástico. A dedicatória do livro dizia “o bebe que eu vi nascer”, mas como ele explicou, sua foto não estava no livro, apenas a dos seus amigos, que ele nomeava ao apontar para as páginas viradas com interesse por Djero, repetindo “estão todos mortos, todos mortos”. Mead havia visitado a escola onde estavam os seus amigos, mas foi para ele que ela dedicou o livro – possivelmente por ter sido amiga da mãe de Iketut, acompanhado sua gravidez e filmado o nascimento de Iketut.
Ali estávamos diante de um caso paradigmático de restituição: a antropóloga que retorna ao local de pesquisa com o resultado da pesquisa, no caso, nada menos do que o livro considerado fundador da Antropologia Visual. Nós olhávamos para as fotos dos gestos cotidianos, das relações entre pais e filhos, mães e filhos e filhas, e víamos ali expressões que captavam o ethos balinês, tal como Bateson e Mead intencionaram. Mas Iketut? O que ele via na obra preciosamente preservada da umidade e insetos do vilarejo incrustado nas montanhas, não muito distante da turística capital de Bali? Para ele, tratava-se de um livro de recordação, dos amigos que estavam “todos mortos” e que ele nomeava ao folhar as páginas. Balinese Character, para ele, era um álbum de família, capaz de emocionar e trazer recordações do mesmo modo que nossos (LEITE, 2001).

O gesto de Mead em trazer e doar Balinese Character, eticamente irreparável e elogiável de muitos pontos de vista, entre os quais o de uma antropologia que preconiza o compartilhamento e a restituição, não pode, no entanto, ser tomado como restituição. Margaret Mead devolveu Balinese Character; do seu ponto de vista, tratava-se de uma restituição. Porém, Iketut recebeu um álbum de fotografias, não a pesquisa de Bateson e Mead, não Balinese Character.

Seria possível pensar, a partir deste pequeno exemplo, que a restituição é uma impossibilidade quando a ‘distância cultural’ (para usar termos de Mead) é grande, como entre os antropólogos e os moradores de Bayun Gedé. Talvez fosse possível restituir em casos em que antropólogos e pesquisados experienciassem uma distância menor. Quem sabe um outro antropólogo tendo sido pesquisado recebesse Balinese Character como Balinese Character?”

Para mais ver: RIAL, Carmen Silvia de Moraes. Roubar a alma: ou as dificuldades da restituição. Tessituras, Pelotas, v. 2, n. 2, p. 201-212, jul/dez 2014.

Fotos: